Moda está na moda

“A moda não é mais um enfeite estético, um acessório decorativo da vida coletiva; é sua pedra angular. A moda terminou estruturalmente seu curso histórico, chegou ao topo do seu poder, conseguiu remodelar a sociedade inteira à sua imagem: era periférica, agora é hegemônica”. Lipovetsky
A moda é uma fonte de novidades que estimulam nosso desejo e há muito tempo deixou de ser apenas sinônimo de glamour e frivolidade para tornar-se um poderoso fenômeno social e de grande importância econômica.
Numa época de grandes transformações geradas pela crescente globalização da economia e dos mercados, é importante uma análise das condições pelas quais a moda se estrutura e se organiza para atingir seus objetivos de crescimento e expansão.
O Brasil é o 6º maior parque têxtil do mundo. Toda a cadeia produtiva soma um total de aproximadamente 30 mil empresas. Em 2006, o mercado de moda no Brasil produziu 7,2 bilhões de peças e consumiu 1 milhão de toneladas de têxteis. O faturamento total do setor foi de US$ 32,5 bilhões e 1,65 milhão de empregos.
Em 2006, o investimento das 17,5 mil empresas que atuam na confecção de vestuário, meias e acessórios têxteis foi da ordem de US$ 103,6 milhões. A maior parte da produção está no Sul/Sudeste. Juntas, as regiões reúnem 86% da produção nacional.
As empresas de pequeno e médio porte representam quase 70% da produção, no entanto, a maior parte dos empregos do setor é gerada nas empresas de pequeno porte.
O recorte por público-alvo mostra que são as mulheres as grandes consumidoras de moda no país. A moda feminina responde por 41% da produção. Já o público masculino representa 35% do mercado. A moda infantil tem participação de 18% e a chamada moda bebê, apenas 5%.
Em 2006, o saldo da balança comercial foi US$ 684,17 milhões – o aumento foi de 4,11% em relação a 2005. As exportações totais chegaram a US$ 2,2 bilhões, um aumento de 5,8% comparado a 2005. Já as importações totais foram de US$ 1,51 bilhão – um crescimento de 6,68% em relação ao ano anterior, A participação brasileira no mercado mundial é de 0,4%. A produção anual de algodão pluma é de 1,3 milhão de toneladas.
O complexo têxtil é composto atualmente com aproximadamente 4.931 indústrias têxteis e 18.000 confecções registradas.
A cadeia industrial têxtil, englobam-se de maneira organizada, todo o processo, desde a matéria-prima (fibras naturais ou artificiais), até o produto desenvolvido e confeccionado nas lojas para o consumidor final.
“Timing da moda”
Existe uma espécie de calendário comum, que chamamos de “timing da moda”, que nos ajuda no entendimento dos processos. As cores são pensadas e decididas de 24 a 30 meses antes da estação em que a roupa estará na vitrine de uma loja; os fios são desenvolvidos 18 meses antes da estação, 12 meses antes os tecidos e 09 meses a confecção (roupas, acessórios, complementos).
As coleções eram vendidas e apresentadas ao varejo pelo menos 06 meses antes da estação chegar, porém, observamos que a cada ano o mercado antecipa mais essa data, estruturado no trinômio da moda.
Sustentação da moda
O trinômio tecnologia, criação e tendência é o principal eixo de sustentação da área de moda, e o ingresso na profissão pressupõe muito estudo para a preparação e desenvolvimento técnico e intelectual.
Esse universo tão complexo e cheio de vertentes que é a moda, tem a intenção de motivar a descoberta e a identificação de todo o potencial do mercado que tem gerado as mais diversas oportunidades de trabalho no mundo inteiro.
Mais do que cor e textura, passarela, vitrine, movimentos e interesses, evolução histórica, mercado, tecnologia, negócios dentre outros, a moda é, fundamentalmente, trabalho num universo de ampla repercussão cultural e econômica. As oportunidades profissionais dessa área não só existem, como crescem a cada dia, num processo diversificado, contínuo e cada vez mais aberto a todos os tipos de talento.
Complexo têxtil
O complexo têxtil engloba vários segmentos: produção de fibras, fiação, tecelagem, malharia, acabamento e confecção e ainda ser incluídos na cadeia segmentos dos setores agroindustrial, químico e de bens de capital, responsáveis pelo fornecimento de matérias-primas e equipamentos.
Diante dessa realidade, a área tem apresentado um constante crescimento de profissionalização, assim como um desempenho de expressivos resultados tanto no Brasil como no exterior. Em virtude desse fenômeno, observamos o surgimento de profissionais com perfis bastante distintos dos conhecidos até pouco tempo.
Para atender à demanda de profissionais para atuar no mundo do trabalho, desde 1988 surgiram diversos cursos de graduação e pós-graduação.
Cursos de Moda
Atualmente, o Brasil é um dos países com o maior número de cursos na área. São mais de 80 cursos em nível de graduação nas modalidades bacharel, tecnológico e seqüencial, e, mais de 40 em nível de especialização, MBA e um em nível de mestrado. Os estados com maior número de cursos de graduação são: São Paulo [30]; Santa Catarina[17]; Rio de Janeiro [11]; Paraná [10]; Minas Gerais [10]; Rio Grande do Sul [6].
E ainda contamos com profissionais experientes na prática do mercado, que aliados à busca continua de conhecimentos técnicos, expressam uma parte importante nesse sistema em total mudança de comportamento e atitude.
A moda é concreta, tem caráter, identidade e emoção. Essas características do sistema necessitam de profissionais preparados para condução da sua dinâmica empresarial. Totalmente inserida no mundo dos negócios, em um mercado com uma grande responsabilidade para a economia brasileira.
A “moda está na moda” para um olhar, um estilo, um negócio, um comércio, uma ocupação um nome.
Sobre a Moda e o Consumo
O mais recente desfile da dupla Viktor and Rolf na semana de moda parisiense condensa todo um pensamento de moda, um pensamento sobre moda e um pensamento para a moda.
Pensamento de moda pois revela em sua exposição uma profunda noção daquelas estruturas e mecanismos de significação que separam irremediavelmente Moda e Vestuário.
Pensamento sobre moda pois mostra que determinados criadores da moda são capazes de propor novas teorizações em torno da Moda feminina não somente através de suas roupas mas igualmente por meio das imagens que propõem para inserir estas roupas e que acabam por gerar significações que se considerariam improváveis caso estas imagens inexistissem.
Pensamento para a moda pois trazem novos encaminhamentos de sentido para uma indústria e prática em permanente carência de renovadas significações.
Para que se adentre o território da Moda femina , é preciso que se lapide seu conceito. Lapidar , como já o sabemos, requer a escultura de um objeto , o que , por sua vez , demanda que se extirpe o excesso de matéria que impede o surgimento do escultórico.
A Moda , ainda que mantenha os mais estreitos vínculos com o Vestuário, não se limita a ele. É óbvio que a Moda e seus ciclos de releitura e inovação paradoxais e perpétuos traduzem-se nas roupas como inovação têxtil (matérica) e formal (eidética).
Para que se entenda a Moda, contudo, é preciso que se compreenda a inserção destas roupas em imagens , ou melhor, em encenações da Moda. Os desfiles, os editoriais , as peças publicitárias concebidas para veicular os produtos e signos da Moda colocam em cena ficções de fantasia e desejo que se encontram, na verdade , na base de sustentação daquilo que se nomeia o Sistema da Moda.
Profundamente atrelado à lógica pós-moderna das marcas , como nos ensina Andrea Semprini em A marca pós-moderna , o Sistema da Moda constitui um infinito e multimidiático teatro de imagens e relações de significação que balizam e alimentam o edifício e lógica do consumo.
Nas imagens do último desfile de Viktor and Rolf , sintetizam-se e reúnem-se conteúdos de uma reflexão acerca da lógica de mostrar roupas em corpos de modelos (corpos modelares , a servirem de modelo e serem copiados) , que comumente caracterizam os desfiles de moda.
Viktor and Rolf nada fazem senão apontar para o caráter altamente artificial da apresentação de roupas em uma passarela. Espetáculos que aliás são longamente ensaiados e produzidos com crescente cuidado e ares de superprodução teatral.
Ao exibirem modelos suspensas por estruturas que remetem a gigantes cabides , a dupla holandesa parece rir da crença generalizada que equipara as modelos de passarela a cabides de roupas.
Irônicos , Viktor and Rolf a um só tempo inserem novas formas de pensarem-se as encenações de desfiles e desnudam a estruturação do grandioso e absurdo espetáculo que é fazer de conta que não estamos ali com o exclusivo intuito de comprar. Pois , na verdade, não estamos.
Contenham o assombro. Permitam-me que os conduza pelo caminho de sentido aqui proposto.
Estamos envoltos por tudo que embalam estas imagens , prontos para nos deixarmos consumir pelo deleite inescapável destas narrativas visuais , para que possamos comprar.
É entre a distância entre comprar e consumir que , por ora , esquadrinhamos aqui o abismo entre Moda e Vestuário. Comprar é ativo. Consumir-se pressupõe deixar-se consumir em desejo e danação pela retórica de persuasão das imagens da Moda.
Fonte: Marco Antônio Ramos VieiraCoordenador N.E.M (Núcleo de Estudos de Moda) da UniCEUB/DF